O agricultor João Carlos Carrion, de Astorga, Norte do Paraná, foi surpreendido por dois bandidos armados – um com uma carabina, outro com um revólver. Ele foi encapuzado, amarrado e colocado no banco de trás do automóvel dos assaltantes. Enquanto um dos ladrões rodava de carro com o agricultor, o outro levou o trator John Deere 6100 (avaliado em R$ 120 mil) e um pulverizador (de R$ 30 mil).

Este é apenas um dos muitos crimes ocorridos nas zonais rurais em todo o Paraná e mostra uma grave realidade: o quanto estão expostos ao perigo o homem do campo e sua família. Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), ao longo dos últimos dois anos e meio, o Estado registrou 2.354 roubos a propriedades rurais (quando bandidos armados rendem as vítimas) e 19.261 furtos (em que ladrões levam os bens quando a vítima não está no local ou não percebem a ação).

Além disso, 1.026 veículos foram furtados e 750 foram roubados no meio rural. Juntos, são quase 23,4 mil ocorrências no período, uma média de 779 por mês. Por um lado, o número de casos vem caindo, mas ainda está em um patamar preocupante: são 25 furtos ou roubos na zona rural por dia.

Vale destacar que os dados dizem respeito apenas aos crimes em que as vítimas registraram boletim de ocorrência. “É um tipo de ocorrência que nos preocupa. Precisamos que o poder público faça a parte dele e garanta nosso direito à segurança. Precisamos ter segurança para continuar produzindo”, disse o presidente do Sistema Faep/Senar-PR, Ágide Meneguette.

PROVIDÊNCIAS

A Faep/Senar-PR acompanha os casos e cobra providências das autoridades, além de orientar os produtores rurais. No ano passado a Federação enviou um ofício à Sesp, solicitando a criação de uma força-tarefa para investigar e desbaratar quadrilhas que têm como alvo propriedades rurais. Já em 2017 foi publicada uma cartilha com orientações que os produtores podem tomar para minimizar a ação dos bandidos (acesse o material clicando aqui).

Dono da fazenda relatada no início desta reportagem, o produtor rural Ademir Primon registrou BO assim que seu funcionário foi localizado. Ele se sente frustrado com a falta de satisfação por parte do poder público. “Nunca nem ligaram para perguntar ou para me informar”, disse. “Eu tenho propriedade no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. Lá ninguém bagunça assim, não. Raramente essas coisas acontecem lá. Quando acontece, a polícia vai atrás e pega. Lá, a bandidagem não se cria”, acrescentou.

POR ENCOMENDA

Muitos crimes acontecem por encomenda, conforme observa Volter Lucas Schwerz, de Cidade Gaúcha. Quatro bandidos invadiram sua propriedade e perguntavam as características de seu trator (um John Deere), enquanto um deles falava ao telefone. “O modelo acabou não interessando o receptador e eles não levaram o trator”, relatou.

A fazenda de Wolfgang Graf, em Engenheiro Beltrão, também foi assaltada. “Os cachorros latiam muito, tinha um carro estacionado na frente de casa. Mas os ladrões estavam mesmo é na parte dos fundos, no barracão. Eles furtaram 180 quilos de inseticida, 28 galões de defensivos e ferramentas”, contou.

RECEPTADORES

Para as forças de segurança, este tipo de crime só se sustenta em razão de uma figura específica: a do receptador, ou seja, aquele que compra os produtos furtados ou roubados. Afinal, as quadrilhas de assaltantes só agem porque há mercado para os bens obtidos de forma criminosa.

A pena prevista para receptação não passa de cinco anos de reclusão. Na maioria dos casos, esses criminosos respondem pelo crime em liberdade. Em caso de condenação, podem cumprir a pena em regime semiaberto. “O receptador é o principal. A gente tem mais aversão ao receptador do que ao próprio ladrão. Esses receptadores são, em geral, donos de mercados, de frigoríficos, fazendeiros. O principal articulador do furto de gado e de produtos agropecuários é o receptador”, disse o delegado João Paulo Sorigotti, da comarca de Terra Rica.

No caso de implementos agrícolas e de insumos, fica ainda mais claro que os produtos furtados ou roubados são comercializados entre os próprios produtores rurais, em um mercado clandestino e criminoso. Por isso, Wolfgang Graf, por exemplo, aponta que os agropecuaristas devem ter consciência e jamais comprar bens de procedência duvidosa e sem nota fiscal. Caso contrário, se estará fomentando esse círculo criminoso.

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