Há algum tempo, o Brasil parece ter deixado para trás o chamado “limbo estatal”. Hoje, vive um cenário ainda mais preocupante: o da insegurança institucional e da incerteza sobre os rumos da nação. A sensação é de que não sabemos para onde o país caminha diante do fortalecimento de narrativas extremadas e da crescente tensão entre os Poderes da República.
Nesse contexto, vale recordar um ensinamento de Aristóteles: “Uma mente educada é capaz de compreender um pensamento diferente do seu sem precisar aceitá-lo.” A frase traduz um dos pilares da convivência democrática: o respeito à divergência.
É justamente do confronto saudável de ideias que surgem soluções capazes de promover o desenvolvimento da sociedade. No entanto, parte da política contemporânea parece ter abandonado esse princípio para adotar discursos que priorizam o engajamento, a promoção pessoal e a manutenção do poder.
Narrativas passaram a valer mais do que o diálogo. Enquanto isso, a população é estimulada a defender posições como se estivesse em uma batalha permanente, dividida entre lados opostos, quando, na realidade, deveria estar unida em torno dos interesses do país.
O problema se agrava quando essa disputa deixa o campo político e alcança as próprias instituições. O que deveria ser uma relação de independência e harmonia entre os Poderes tem dado lugar a uma evidente queda de braço entre Legislativo e Judiciário.
De um lado, parlamentares afirmam que há excessos e invasão de competências. Do outro, integrantes do Judiciário sustentam que apenas cumprem sua missão constitucional de interpretar e aplicar a Constituição.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: quem vencerá essa disputa? O Judiciário, na defesa da ordem constitucional, ou o Legislativo, legitimado pelo voto popular?
Independentemente da resposta, talvez essa seja a pergunta errada.
A verdadeira reflexão deveria ser outra: quem perde quando os Poderes entram em conflito permanente?
A intensa polarização entre direita e esquerda acabou reduzindo o debate público a uma lógica em que importa apenas defender o próprio lado. O pensamento crítico foi substituído pela fidelidade às narrativas, enquanto princípios como equilíbrio, diálogo e responsabilidade institucional perderam espaço.
Criou-se uma cultura em que os benefícios são desejados para os aliados e o rigor reservado aos adversários. Esse comportamento compromete a construção de uma sociedade verdadeiramente justa, igualitária e democrática.
Diante desse quadro, mais do que apontar vencedores ou derrotados na disputa entre os Poderes, é preciso reconhecer que os maiores prejuízos recaem sobre o cidadão comum, que assiste ao desgaste das instituições enquanto enfrenta problemas concretos que permanecem sem solução.
Esta reflexão não pretende oferecer críticas vazias, tampouco alimentar disputas ideológicas. O objetivo é provocar consciência.
As eleições representam uma oportunidade para que a sociedade avalie, com responsabilidade, o comportamento de seus representantes e faça escolhas pautadas pelo compromisso com a democracia, o equilíbrio institucional e o interesse público.
Mais do que seguir líderes ou narrativas, é preciso exercer plenamente a cidadania. O futuro do país pertence ao povo — desde que este compreenda a força e a responsabilidade do próprio voto.
Advogado
Governador Valadares (MG)
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