A modernização e a popularização da tecnologia trouxeram ao mundo novos desafios para os quais o aparato estatal, em muitos aspectos, ainda não estava preparado. Nesse novo ambiente — o universo digital — a população aprende diariamente a conviver, especialmente por meio das redes sociais, onde cada pessoa expõe sua cultura, suas opiniões e sua forma de enxergar o mundo.
Entretanto, a velocidade com que as informações circulam tem provocado uma mudança preocupante no comportamento dos usuários. Em vez de interpretar e refletir sobre o conteúdo consumido, muitas pessoas apenas deslizam o feed em busca de mais informações, numa tentativa constante de absorver novidades que, na maioria das vezes, pouco acrescentam ao conhecimento.
Percebendo esse comportamento, grandes páginas e perfis passaram a investir em manchetes cuidadosamente elaboradas para despertar emoções imediatas, gerar engajamento e impulsionar o compartilhamento das publicações. O objetivo, muitas vezes, deixa de ser informar com qualidade para priorizar curtidas, alcance, crescimento e fama.
Um exemplo recente foi a ampliação, pela Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais, do programa Escola de Masculinidades. À primeira vista, o nome pode causar estranheza ou até despertar interpretações equivocadas. No entanto, superada a impressão inicial, torna-se evidente a relevância da iniciativa. O projeto busca incentivar jovens e adultos a romper ciclos de violência e fortalecer valores baseados no diálogo, na igualdade e no respeito mútuo, com especial atenção ao enfrentamento da violência doméstica.
Nesse contexto, diante dos frequentes casos de feminicídio registrados no país, parte da imprensa digital e dos grandes perfis nas redes sociais aproveita a sensibilidade do tema para publicar manchetes propositalmente ambíguas. O resultado é previsível: milhares de comentários, discussões acaloradas e pessoas defendendo suas convicções, muitas vezes recorrendo a ofensas e ataques pessoais.
Vivemos um momento em que a notícia deixa de ser protagonista. O compromisso com a informação responsável perde espaço para o chamado hype. Em vez de conhecer o funcionamento de projetos importantes e debater seus possíveis impactos positivos para a sociedade, muitos preferem discutir apenas o título da publicação ou reforçar posicionamentos já consolidados. Seria muito mais produtivo discutir formas de aprimorar iniciativas como essa ou pensar em maneiras de levá-las para outras cidades, contribuindo para a construção de uma sociedade mais respeitosa.
A realidade é que, muitas vezes, deixamos de exercer nossa responsabilidade como cidadãos para buscar apenas a adrenalina proporcionada pelas redes sociais. Não adianta reclamar da política, das instituições ou da sociedade se não estamos dispostos a assumir nossa parcela de responsabilidade. Quando permitimos que manchetes sensacionalistas conduzam nossas emoções e nossas opiniões, tornamo-nos facilmente manipuláveis.
Precisamos retomar o protagonismo, colaborar com a construção de uma sociedade mais justa e fortalecer valores que possam beneficiar as futuras gerações. Devemos rejeitar a manipulação por meio de notícias apelativas, exigir informação de qualidade e desenvolver um olhar crítico sobre tudo o que consumimos nas redes sociais. Sem esse senso crítico, corremos o risco de sermos conduzidos por narrativas superficiais e percebermos tarde demais os efeitos dessa influência.
Fica, portanto, um convite ao leitor: exija mais qualidade dos canais de informação e deixe de lado discussões improdutivas para concentrar energia naquilo que realmente transforma a sociedade. Afinal, apegar-se apenas ao título de uma notícia, sem compreender seu conteúdo, pode nos conduzir a conclusões equivocadas.
Por Juliano Aguiar
Artigo de opinião publicado em 28 de junho de 2026.
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